Sobre uma pausa. E um retorno.

Faz quase um ano exato que este blog está parado, sem nenhum post, sem absolutamente nada. Eu podia, perfeitamente, ter declarado o seu fim, mas ele ficou aqui, paradinho, escondidinho, para que voltasse em algum momento. Na verdade, eu só estava sem um mínimo de vontade ou inspiração para falar sobre música. E eu podia tentar ficar tentando dar mil explicações, mas entendo isso como algo inerente à vida. Tem dias em que a inspiração pulsa, inquieta, não deixa dormir. Em outros dias, a gente olha para o papel e nenhuma palavra surge. Acontece.

Ano passado foi muito corrido. Era o meu último ano de faculdade e eu tinha tanta coisa para fazer que a última coisa que me passava pela cabeça era me dedicar a um blog.

E, então, me formei, fiquei desempregada e comecei a caçar música, como fazia na época em que estava no ensino médio. Conheci tanta coisa legal em tão pouco tempo que me vi sem escolhas: precisa voltar a falar sobre música.

E então a Jukebox voltou (não posso dizer se é para ficar, porém, por enquanto, ela está de volta).

Quem foi que disse que é brega?

Essa semana o Wando morreu. E eu, aqui no meu cantinho, chorei. Não acompanhei toda a trajetória de sua internação, de sua doença. Sabia que ele não estava bem, mas Wando era daqueles caras que eu realmente curtia. Ele era carismático, tinha discos ótimos e era o cara das calcinhas, o cara de “Fogo e Paixão”, música que todo mundo canta pelos karaokês do país. Para mim, ele estaria vivo, mesmo que não tivesse mais, porque a minha ligação era com aquilo que ele tinha deixado para a gente escutar.

Wando vira, de repente, Trending Topics. Não por ter se tornado legal, não por ter se tornado maravilhoso gostar de Wando, mas porque o cara das calcinhas tinha morrido e, nessa hora, todos se colocam a sentir, a tentar mostrar que sabem cantar “Fogo e Paixão”, a fazer piadinhas sobre ele ter virado luz, raio, estrela e luar. Nessa hora, o rótulo de brega some e muitos que nunca ouviram suas outras músicas, se colocam a sentir a morte de alguém que nunca sentiram.

E aí o Wando me fez pensar uma coisa: Quem foi, afinal, que colocou a música em tantas categorias tão fechadas? Quem foi que colocou o brega naquele prateleira de brechó oitentista da qual sempre vamos rir, mas nunca vamos perceber a genialidade?

Não vou chegar e mentir para vocês que sou uma grande apreciadora da música brega. Gosto mesmo de alguns artistas que trabalham com esse título assumidamente, gosto de outras coisas que não são exploradas pelas pessoas por levarem algo da essência do que é brega. Mas, para mim, o brega trabalha com os nossos sentimentos mais singelos, que beiram a inocência. O brega não enche linhas de letras complicadas, ele trabalha com o dizer claramente, de forma simples. E então, acabo entendendo como brega mais do que o Wandão, mais do que o Odair José, mais do que o Ronnie Von, o Falcão, ou esses todos. Entendo como brega o Chitãozinho e Xororó, a Sandy e o Júnior, os meus amados anos 80, os Backstreet Boys, o Ricky Martin, ou mesmo o Rei Roberto Carlos, na sua fase “sou taxista, tô na rua, tô na pista”: basicamente, tudo aquilo que fomos ensinados que não é bonito e não é cult gostar.

Sugiro, muito sinceramente, que paremos de ser tão objetivos quanto ao gostarmos ou não gostarmos de alguma coisa. Que paremos para ouvir, que nos deixemos afetar em nossos sentimentos mais simples e ver, de verdade, se gostamos daquilo ou não. Vamos, de verdade, parar de ter vergonha de saber que as músicas que mexem com a gente nas horas de dor de cotovelo podem ser justamente essas, as que dizem: “mas não posso enganar meu coração, eu sei que te amo”. E que elas não precisam ser tão preteridas: devem ser ouvidas, cantadas, perceber que fazem parte de nós e de quem somos e que são, sim, tão geniais e interessantes quanto qualquer Chico, Gil, Caetano… A gente tem que parar de usar a música como propaganda de quem somos: gostar de mpb, de rock anos 70 ou tantas outras coisas não podem mesmo te tornar mais interessantes do que quem ouve Amado Batista. Não podem.

Desliga essa câmera e aproveita o show.

Uma vez, alguém comentou comigo que a Björk tinha parado um show e pedido para que as pessoas desligassem as suas câmeras e aproveitassem a música.

Faz uns bons anos isso, mas sabe aquele tipo de coisa que bate em você e nunca passa?

Então, afinal, por que filmar e fotografar um show se torna tão mais importante e fundamental do que simplesmente estar ali e viver aquela experiência-público-artista  sem tantos aparatos?



Acho que são muitos os fatores que mudaram esse tipo de experiência e eu vou tentar comentar algumas daquelas que percebo.

A primeira delas é muito óbvia e evidente: a nossa relação com o ato de fotografar e de filmar mudou. Mesmo que a gente prefira o analógico, a maioria de nós já vivenciou a experiência de bater uma foto, não ficar boa e a gente ir lá e apagar. Vocês lembram de como isso era antes da câmera digital?

Um filme era uma coisa extremamente cara. Aí, como a gente fazia? Ia meio que tirando foto só daqueles momentos importantes, especiais. Até revelar o filme era uma ansiedade: A gente demorava para revelar também, porque não era barato. E, além disso, a gente não tinha aquele visor que já nos dizia que fotos imprimir, que fotos ficaram boas e quais ficaram horríveis. A gente não podia escolher só sair com cara de bonito. E o momento de pegar e ver como as fotos ficaram eram um acontecimento muito divertido: “olha a cara de fulano”, “olha como eu saí horrível”, “ah, mas tá brincando que você cortou bem aquela flor que eu queria que saísse?”.


Com o filmar a relação também era diferente: Assim, câmera fotográfica a gente até achava umas baratinhas, mas filmadora era caro e não era uma coisa, digamos, prática… Elas eram enormes! Aí acabava filmando as festinhas de família, a festinha da escola, porque não tinha mesmo como levar a filmadora para todo lugar.

Com o digital, em um aparelho a gente tem tudo. A gente escolhe o que quer recordar, o que ficou bonito, do jeito que queríamos. E isso, em si, não é algo que condeno: é um outro tipo de relação que surge e que casa muito bem com a maneira que vivemos hoje. Espetáculo, imagem, enfim, chame daquilo que quiser, mas é algo que pode ser resumido no fato de que para serem comprovadas e legitimadas, as coisas precisam ser compartilhadas em algum lugar e esse lugar são as redes sociais. Mas não podemos compartilhar de qualquer jeito: temos que ter as fotos certas, os vídeos certos, dos momentos certos, com as pessoas certas, porque é através de imagens que vamos construir as nossas imagens, entendem? Além das fotos, temos todas aquelas coisinhas que curtimos, que colocamos como gostos e tals, coisas que vão compor uma imagem que se pretende positiva para as pessoas que queremos agradar.

(Sei que a essa altura você deve estar super pensando que eu estou viajando e que fui longe demais, mas não acho que as coisas aconteçam por um único motivo e nem que o pensamento tenha que seguir de forma linear…)

Isso casa muito com aquele post em que eu falava de música como trilha sonora ou como alimento, pois aí paro para pensar sobre de que formas temos nos alimentado. Se o alimento for mesmo o da imagem, o que vai importar é fotografar aquele artista x idolatrado e mostrar que você fez parte daquela pequena gama que teve o privilégio de vê-lo, agora se a gente tá preocupado em coisas para além das redes sociais, para além da aceitação, se a gente enxerga – com o perdão do clichê- música como alimento da alma, talvez seja mesmo melhor desligar a câmera e aproveitar o show.

(imagens:http://www.weheartit.com)

we.music

O we.music é um projeto com uma idéia genial: juntar alguns artistas, de estilos completamente diferentes para fazer parcerias e, além disso, fazer um documentário que pensasse a produção atual da música e o seu “futuro”.

No documentário, os artistas que participaram no projeto falam de como a internet e o computador mudaram a produção musical em seus mais diversos aspectos: a composição, o conhecer pessoas para tramparem com você, a construção da música a partir da gravação, a distribuição, o consumo, o design. Enfim, toda a discussão é muito rica e eu estou aqui, completamente encantada pelo que acabei de ver:

No site, as parcerias já estão disponíveis para serem ouvidas e, devo dizer, são um prato cheio para quem curte música eletrônica para além daquela coisa chata e maçante da reprodução que acaba sendo tão comum nesse tipo de música.

Ótima descoberta de fim de dia. 🙂

Música como trilha sonora ou música como alimento?

Fiquei me esforçando para lembrar de onde surgiu a inspiração desse post. A questão é que veio de uma frase dessa entrevista aqui com o Lucas, vocalista da Fresno:

Em alguma parte da entrevista, Lucas falando sobre vinis, diz que “as pessoas não ouvem mais música, tu ouve para dormir, tu ouve para acordar… não é uma coisa para ser trilha sonora, é uma coisa para ouvir e consumir a música”.

De alguma forma, isso fez todo um sentido de reflexão em relação ao mundo e à minha vida, até porque, eu gosto muito de parar e pensar sobre as coisas. E como eu amo tanto música, fazia sentido pensar sobre isso.

Não é de hoje que música se tornou algo para embalar a sua vida. Você ouve para acordar, para costurar, para dormir, para estudar, para trepar, enfim: ouve para viver e, por isso, acaba não vivendo a música. Isso acabou acontecendo, é claro, com a “imagetização” da música, a partir dos videoclipes, e mais tarde (e mais gritantemente) com o livre acesso à música a partir dos mp3: em um mundo onde ter aquela discografia é mais importante do que ouvi-la e gostar realmente dela.

Degustar música não é fácil e para quem está acostumado a viver nesse mundo de tanta hiperatividade é mais fácil mesmo deixá-la de fundo, do que parar o corpo, acalmar, perceber coisas além da letra e do mais marcante.

Quando eu era mais nova, eu tinha muito o costume de parar tudo que fazia durante a tarde, por exemplo, e ficar só ouvindo a música, percebendo coisas dela. Acabei perdendo esse costume com o tempo, até que um dia, estava viajando, ouvindo música, quando comecei a reparar coisas que eu nunca tinha reparado em alguma canção do Móveis (Coloniais de Acaju). Depois desse dia, percebi que precisava fazer isso mais e mais vezes.

Estar preso no visual, já que vivemos num mundo bastante imagético, acaba atrapalhando muito a gente a ouvir música, paramos para prestar atenção em outras coisas e esquecemos que tem aquela música lá. Apagar a luz é bem legal nessas horas. Tudo parece saltar e ficar mais evidente.

Não digo que devemos parar de deixar a música como trilha sonora, porque ela é realmente um elemento ótimo na vida para se fazer isso, mas não acho que algo tão grandioso deva ficar só nesse patamar: ela deve ser degustada e aproveitada do jeito que merece.

(imagens: weheartit.com)