Músicas que eu gostaria de ter escrito #03

Eu estava no pré-II. Era dia internacional da mulher. E a professora começou a explicar o porquê de existir aquele dia, das trabalhadoras morrendo queimadas em fábricas. Isso nunca saiu da minha cabeça.

Logo depois de contar a história, ela tocou “Maria, Maria” e desde esse dia, eu nunca mais consegui ouvir essa música sem sentir imensos arrepios, sem lembrar dessas histórias todas. Ao menos 16 anos passaram e essa música ainda me causa tanta coisa.

Acho que se existe uma música intensa em todos os seus sentidos é essa. E é por isso que eu adoraria ter a honra de tê-la escrito.

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Quem foi que disse que é brega?

Essa semana o Wando morreu. E eu, aqui no meu cantinho, chorei. Não acompanhei toda a trajetória de sua internação, de sua doença. Sabia que ele não estava bem, mas Wando era daqueles caras que eu realmente curtia. Ele era carismático, tinha discos ótimos e era o cara das calcinhas, o cara de “Fogo e Paixão”, música que todo mundo canta pelos karaokês do país. Para mim, ele estaria vivo, mesmo que não tivesse mais, porque a minha ligação era com aquilo que ele tinha deixado para a gente escutar.

Wando vira, de repente, Trending Topics. Não por ter se tornado legal, não por ter se tornado maravilhoso gostar de Wando, mas porque o cara das calcinhas tinha morrido e, nessa hora, todos se colocam a sentir, a tentar mostrar que sabem cantar “Fogo e Paixão”, a fazer piadinhas sobre ele ter virado luz, raio, estrela e luar. Nessa hora, o rótulo de brega some e muitos que nunca ouviram suas outras músicas, se colocam a sentir a morte de alguém que nunca sentiram.

E aí o Wando me fez pensar uma coisa: Quem foi, afinal, que colocou a música em tantas categorias tão fechadas? Quem foi que colocou o brega naquele prateleira de brechó oitentista da qual sempre vamos rir, mas nunca vamos perceber a genialidade?

Não vou chegar e mentir para vocês que sou uma grande apreciadora da música brega. Gosto mesmo de alguns artistas que trabalham com esse título assumidamente, gosto de outras coisas que não são exploradas pelas pessoas por levarem algo da essência do que é brega. Mas, para mim, o brega trabalha com os nossos sentimentos mais singelos, que beiram a inocência. O brega não enche linhas de letras complicadas, ele trabalha com o dizer claramente, de forma simples. E então, acabo entendendo como brega mais do que o Wandão, mais do que o Odair José, mais do que o Ronnie Von, o Falcão, ou esses todos. Entendo como brega o Chitãozinho e Xororó, a Sandy e o Júnior, os meus amados anos 80, os Backstreet Boys, o Ricky Martin, ou mesmo o Rei Roberto Carlos, na sua fase “sou taxista, tô na rua, tô na pista”: basicamente, tudo aquilo que fomos ensinados que não é bonito e não é cult gostar.

Sugiro, muito sinceramente, que paremos de ser tão objetivos quanto ao gostarmos ou não gostarmos de alguma coisa. Que paremos para ouvir, que nos deixemos afetar em nossos sentimentos mais simples e ver, de verdade, se gostamos daquilo ou não. Vamos, de verdade, parar de ter vergonha de saber que as músicas que mexem com a gente nas horas de dor de cotovelo podem ser justamente essas, as que dizem: “mas não posso enganar meu coração, eu sei que te amo”. E que elas não precisam ser tão preteridas: devem ser ouvidas, cantadas, perceber que fazem parte de nós e de quem somos e que são, sim, tão geniais e interessantes quanto qualquer Chico, Gil, Caetano… A gente tem que parar de usar a música como propaganda de quem somos: gostar de mpb, de rock anos 70 ou tantas outras coisas não podem mesmo te tornar mais interessantes do que quem ouve Amado Batista. Não podem.

Cantinho da Vergonha #02. Anos 90 e as suas boybands.

Ah, os anos 90! Tempos de bandas maravilhosas como o Nirvana, o Pearl Jam, o Smashing Pumpkins, o Live e… tempos de coisas medonhas como as malditas bandas de Dance Music que cantavam músicas emblemáticas como “Come come come into my life, come come stay with me, nobody loves me, nobody loves me enough… panananan, oh no!” ou mesmo “all that she wants is another baby… tanãnãnã”.

Anos 90, os tempos daqueles 5 garotos bonitos que cantavam bem, atiçavam a libido das garotinhas e garotinhos, além de ter uma música. Afinal, assim, a gente sabe que todos os outros elementos de uma boyband eram mais importantes que a música, mas a gente gosta delas mesmo assim. Seja por apego emocional ou seja porque, de alguma forma, naqueles tempos as pessoas sabiam fazer música pop boa e que conquistasse o galere.

A primeira boyband que lembro de ter visto e gostado foi o Boyzone:

Devo dizer que não era nada perto do que estaria por vir nos anos seguintes com a, muito possivelmente, maior banda de garotos-bonitos-cantores que já pisou nesse planeta. AH, os Backstreet Boys!

No começo e, para mim, nos melhores anos da banda, tudo parecia muito ingênuo: os clipes não eram superproduzidos, os estereótipos extremamente marcados, mas as músicas eram um pop muito bacana e bem pensado.

Aí as coisas começaram a melhorar, os clipes começaram a ganhar produções interessantes e bacanas:

Aí depois veio o Millenium, o disco deles que mais fez sucesso, que tinha “I Want It That Way” e que tinha clipes que ficavam eternamente no 1º lugar do Disk MTV, o que me fez cansar bastante, na verdade.

Aí eu comecei a gostar mais da 2ª boyband mais legal daqueles tempos. O N Sync, o Justin-Cabelo-de-Pipoca, os clipes dramáticos e sem sentido, enfim, uma combinação bizarra que só poderia gerar uma coisa em todos nós: Muito amor!

Não tem jeito, poderiam lançar 800 mil boybands, mas nenhuma era tão legal quanto essas duas e, olha, eu nem sei explicar o porquê. HAHAHAHAHA.

O 5ive até tinha algumas músicas bem bonitinhas:

Mais tarde um pouquinho surgiu o Westlife, que foi a última boyband que eu gostei de verdade.

Depois disso, as boybands começaram a perder força e começou a vir aquele rockinho mela-cueca tipo The Calling, Creed e alguns outros. Eles não eram tão legais quanto aquelas bandas dos já idos anos 90 e imagino que nunca tenham ganhado quartos lotados de pôsteres e tanta libido de tantas garotas e garotos. Ali, os tempos já eram outros, mas muitos daqueles que gostaram de boyband no fim dos 90, certamente, ainda as ouvem, mesmo que escondidos no quarto.

Sobre como me apaixonei e sempre me apaixono pelo Smashing Pumpkins.

Quando comecei esse blog, o meu objetivo era falar de música: das bandas que gostava, das novas descobertas, de antigas paixões, de redescobertas. Enfim, era falar das minhas experiências com música. Todos os textos seriam extremamente pessoais. E já que seriam assim, algumas bandas acabariam tendo posts bem mais apaixonados do que outros, outras me dariam medo de escrever, outras, vergonha.

Já faz muito, muito tempo que estou ensaiando escrever um post sobre o Smashing Pumpkins. Mas sabe aquela coisa de as palavras existirem em você e não quererem sair para o papel? Isso aconteceu algumas vezes. Não à toa. É que essa é uma daquelas bandas que quando ouço, penso: “Isso tudo fala de mim”. E, por isso, acaba sendo tão difícil, porque entre todas as bandas que gosto muito, nenhuma parece tão pessoal e nenhuma ligação parece tão visceral quanto a que eu tenho pelo Smashing Pumpkins.

 

A primeira memória que tenho de como conheci a banda é o clipe de “Perfect”.Lembro de achar ele muito bonito. Mas devo ser sincera: na época, isso não era o que me atraía. Estava mais preocupada em esperar os clipes das boybands que gostava aparecem no Top 20 e Disk MTV da época.

Só tive uma curiosidade maior em procurar coisas da banda quando um amigo meu chegou com um DVD de clipes da banda e disse: “Tenho certeza que quando procurar mais deles, vai se tornar uma das suas bandas prediletas”. Dito e feito. Não tinha como escapar da sensação que surgia em mim a cada clipe que assistia: era coisa de pele, de arrepiar, de tirar o fôlego, de fazer sorrir, chorar, ter raiva, angústia. Era tudo no mesmo pacote.

Aí saí baixando os discos loucamente, lendo as letras e pensando: “Esse Billy Corgan é um maldito. Deve ter entrado na minha cabeça algum dia e visto tudo que eu penso da vida”. E é bem por aí. Às vezes, passo muito tempo sem ouvir uma música sequer do Smashing Pumpkins e quando ouço, tudo surge de novo. É uma coisa impressionante. E o mais engraçado é que a cada vez que leio as letras, elas parecem fazer mais sentido e encaixar em mim.

E os clipes? Lindos, lindos. Eles não são só videoclipes, sabe? São preocupados, pensados. Alguns são pequenos filmes, outros mais focados na banda, mas todos muito lindos e muito preocupados em dar uma estética visual bacana para músicas tão lindas.

Para quem ainda não se apaixonou pela banda, recomendo que baixem os CDs, vejam os clipes e que se permitam afetar por tudo isso. Smashing Pumpkins é daquelas bandas fáceis de gostar e que fazem valer a pena parar para ouvir música.

(Ai, gente, devo dizer que foi muito difícil escolher os vídeos para colocar nesse post, porque queria colocar todos do mundo… HAHAHAHA)

 

 

 

Desliga essa câmera e aproveita o show.

Uma vez, alguém comentou comigo que a Björk tinha parado um show e pedido para que as pessoas desligassem as suas câmeras e aproveitassem a música.

Faz uns bons anos isso, mas sabe aquele tipo de coisa que bate em você e nunca passa?

Então, afinal, por que filmar e fotografar um show se torna tão mais importante e fundamental do que simplesmente estar ali e viver aquela experiência-público-artista  sem tantos aparatos?



Acho que são muitos os fatores que mudaram esse tipo de experiência e eu vou tentar comentar algumas daquelas que percebo.

A primeira delas é muito óbvia e evidente: a nossa relação com o ato de fotografar e de filmar mudou. Mesmo que a gente prefira o analógico, a maioria de nós já vivenciou a experiência de bater uma foto, não ficar boa e a gente ir lá e apagar. Vocês lembram de como isso era antes da câmera digital?

Um filme era uma coisa extremamente cara. Aí, como a gente fazia? Ia meio que tirando foto só daqueles momentos importantes, especiais. Até revelar o filme era uma ansiedade: A gente demorava para revelar também, porque não era barato. E, além disso, a gente não tinha aquele visor que já nos dizia que fotos imprimir, que fotos ficaram boas e quais ficaram horríveis. A gente não podia escolher só sair com cara de bonito. E o momento de pegar e ver como as fotos ficaram eram um acontecimento muito divertido: “olha a cara de fulano”, “olha como eu saí horrível”, “ah, mas tá brincando que você cortou bem aquela flor que eu queria que saísse?”.


Com o filmar a relação também era diferente: Assim, câmera fotográfica a gente até achava umas baratinhas, mas filmadora era caro e não era uma coisa, digamos, prática… Elas eram enormes! Aí acabava filmando as festinhas de família, a festinha da escola, porque não tinha mesmo como levar a filmadora para todo lugar.

Com o digital, em um aparelho a gente tem tudo. A gente escolhe o que quer recordar, o que ficou bonito, do jeito que queríamos. E isso, em si, não é algo que condeno: é um outro tipo de relação que surge e que casa muito bem com a maneira que vivemos hoje. Espetáculo, imagem, enfim, chame daquilo que quiser, mas é algo que pode ser resumido no fato de que para serem comprovadas e legitimadas, as coisas precisam ser compartilhadas em algum lugar e esse lugar são as redes sociais. Mas não podemos compartilhar de qualquer jeito: temos que ter as fotos certas, os vídeos certos, dos momentos certos, com as pessoas certas, porque é através de imagens que vamos construir as nossas imagens, entendem? Além das fotos, temos todas aquelas coisinhas que curtimos, que colocamos como gostos e tals, coisas que vão compor uma imagem que se pretende positiva para as pessoas que queremos agradar.

(Sei que a essa altura você deve estar super pensando que eu estou viajando e que fui longe demais, mas não acho que as coisas aconteçam por um único motivo e nem que o pensamento tenha que seguir de forma linear…)

Isso casa muito com aquele post em que eu falava de música como trilha sonora ou como alimento, pois aí paro para pensar sobre de que formas temos nos alimentado. Se o alimento for mesmo o da imagem, o que vai importar é fotografar aquele artista x idolatrado e mostrar que você fez parte daquela pequena gama que teve o privilégio de vê-lo, agora se a gente tá preocupado em coisas para além das redes sociais, para além da aceitação, se a gente enxerga – com o perdão do clichê- música como alimento da alma, talvez seja mesmo melhor desligar a câmera e aproveitar o show.

(imagens:http://www.weheartit.com)

we.music

O we.music é um projeto com uma idéia genial: juntar alguns artistas, de estilos completamente diferentes para fazer parcerias e, além disso, fazer um documentário que pensasse a produção atual da música e o seu “futuro”.

No documentário, os artistas que participaram no projeto falam de como a internet e o computador mudaram a produção musical em seus mais diversos aspectos: a composição, o conhecer pessoas para tramparem com você, a construção da música a partir da gravação, a distribuição, o consumo, o design. Enfim, toda a discussão é muito rica e eu estou aqui, completamente encantada pelo que acabei de ver:

No site, as parcerias já estão disponíveis para serem ouvidas e, devo dizer, são um prato cheio para quem curte música eletrônica para além daquela coisa chata e maçante da reprodução que acaba sendo tão comum nesse tipo de música.

Ótima descoberta de fim de dia. 🙂