Quem foi que disse que é brega?

Essa semana o Wando morreu. E eu, aqui no meu cantinho, chorei. Não acompanhei toda a trajetória de sua internação, de sua doença. Sabia que ele não estava bem, mas Wando era daqueles caras que eu realmente curtia. Ele era carismático, tinha discos ótimos e era o cara das calcinhas, o cara de “Fogo e Paixão”, música que todo mundo canta pelos karaokês do país. Para mim, ele estaria vivo, mesmo que não tivesse mais, porque a minha ligação era com aquilo que ele tinha deixado para a gente escutar.

Wando vira, de repente, Trending Topics. Não por ter se tornado legal, não por ter se tornado maravilhoso gostar de Wando, mas porque o cara das calcinhas tinha morrido e, nessa hora, todos se colocam a sentir, a tentar mostrar que sabem cantar “Fogo e Paixão”, a fazer piadinhas sobre ele ter virado luz, raio, estrela e luar. Nessa hora, o rótulo de brega some e muitos que nunca ouviram suas outras músicas, se colocam a sentir a morte de alguém que nunca sentiram.

E aí o Wando me fez pensar uma coisa: Quem foi, afinal, que colocou a música em tantas categorias tão fechadas? Quem foi que colocou o brega naquele prateleira de brechó oitentista da qual sempre vamos rir, mas nunca vamos perceber a genialidade?

Não vou chegar e mentir para vocês que sou uma grande apreciadora da música brega. Gosto mesmo de alguns artistas que trabalham com esse título assumidamente, gosto de outras coisas que não são exploradas pelas pessoas por levarem algo da essência do que é brega. Mas, para mim, o brega trabalha com os nossos sentimentos mais singelos, que beiram a inocência. O brega não enche linhas de letras complicadas, ele trabalha com o dizer claramente, de forma simples. E então, acabo entendendo como brega mais do que o Wandão, mais do que o Odair José, mais do que o Ronnie Von, o Falcão, ou esses todos. Entendo como brega o Chitãozinho e Xororó, a Sandy e o Júnior, os meus amados anos 80, os Backstreet Boys, o Ricky Martin, ou mesmo o Rei Roberto Carlos, na sua fase “sou taxista, tô na rua, tô na pista”: basicamente, tudo aquilo que fomos ensinados que não é bonito e não é cult gostar.

Sugiro, muito sinceramente, que paremos de ser tão objetivos quanto ao gostarmos ou não gostarmos de alguma coisa. Que paremos para ouvir, que nos deixemos afetar em nossos sentimentos mais simples e ver, de verdade, se gostamos daquilo ou não. Vamos, de verdade, parar de ter vergonha de saber que as músicas que mexem com a gente nas horas de dor de cotovelo podem ser justamente essas, as que dizem: “mas não posso enganar meu coração, eu sei que te amo”. E que elas não precisam ser tão preteridas: devem ser ouvidas, cantadas, perceber que fazem parte de nós e de quem somos e que são, sim, tão geniais e interessantes quanto qualquer Chico, Gil, Caetano… A gente tem que parar de usar a música como propaganda de quem somos: gostar de mpb, de rock anos 70 ou tantas outras coisas não podem mesmo te tornar mais interessantes do que quem ouve Amado Batista. Não podem.

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