Desliga essa câmera e aproveita o show.

Uma vez, alguém comentou comigo que a Björk tinha parado um show e pedido para que as pessoas desligassem as suas câmeras e aproveitassem a música.

Faz uns bons anos isso, mas sabe aquele tipo de coisa que bate em você e nunca passa?

Então, afinal, por que filmar e fotografar um show se torna tão mais importante e fundamental do que simplesmente estar ali e viver aquela experiência-público-artista  sem tantos aparatos?



Acho que são muitos os fatores que mudaram esse tipo de experiência e eu vou tentar comentar algumas daquelas que percebo.

A primeira delas é muito óbvia e evidente: a nossa relação com o ato de fotografar e de filmar mudou. Mesmo que a gente prefira o analógico, a maioria de nós já vivenciou a experiência de bater uma foto, não ficar boa e a gente ir lá e apagar. Vocês lembram de como isso era antes da câmera digital?

Um filme era uma coisa extremamente cara. Aí, como a gente fazia? Ia meio que tirando foto só daqueles momentos importantes, especiais. Até revelar o filme era uma ansiedade: A gente demorava para revelar também, porque não era barato. E, além disso, a gente não tinha aquele visor que já nos dizia que fotos imprimir, que fotos ficaram boas e quais ficaram horríveis. A gente não podia escolher só sair com cara de bonito. E o momento de pegar e ver como as fotos ficaram eram um acontecimento muito divertido: “olha a cara de fulano”, “olha como eu saí horrível”, “ah, mas tá brincando que você cortou bem aquela flor que eu queria que saísse?”.


Com o filmar a relação também era diferente: Assim, câmera fotográfica a gente até achava umas baratinhas, mas filmadora era caro e não era uma coisa, digamos, prática… Elas eram enormes! Aí acabava filmando as festinhas de família, a festinha da escola, porque não tinha mesmo como levar a filmadora para todo lugar.

Com o digital, em um aparelho a gente tem tudo. A gente escolhe o que quer recordar, o que ficou bonito, do jeito que queríamos. E isso, em si, não é algo que condeno: é um outro tipo de relação que surge e que casa muito bem com a maneira que vivemos hoje. Espetáculo, imagem, enfim, chame daquilo que quiser, mas é algo que pode ser resumido no fato de que para serem comprovadas e legitimadas, as coisas precisam ser compartilhadas em algum lugar e esse lugar são as redes sociais. Mas não podemos compartilhar de qualquer jeito: temos que ter as fotos certas, os vídeos certos, dos momentos certos, com as pessoas certas, porque é através de imagens que vamos construir as nossas imagens, entendem? Além das fotos, temos todas aquelas coisinhas que curtimos, que colocamos como gostos e tals, coisas que vão compor uma imagem que se pretende positiva para as pessoas que queremos agradar.

(Sei que a essa altura você deve estar super pensando que eu estou viajando e que fui longe demais, mas não acho que as coisas aconteçam por um único motivo e nem que o pensamento tenha que seguir de forma linear…)

Isso casa muito com aquele post em que eu falava de música como trilha sonora ou como alimento, pois aí paro para pensar sobre de que formas temos nos alimentado. Se o alimento for mesmo o da imagem, o que vai importar é fotografar aquele artista x idolatrado e mostrar que você fez parte daquela pequena gama que teve o privilégio de vê-lo, agora se a gente tá preocupado em coisas para além das redes sociais, para além da aceitação, se a gente enxerga – com o perdão do clichê- música como alimento da alma, talvez seja mesmo melhor desligar a câmera e aproveitar o show.

(imagens:http://www.weheartit.com)

we.music

O we.music é um projeto com uma idéia genial: juntar alguns artistas, de estilos completamente diferentes para fazer parcerias e, além disso, fazer um documentário que pensasse a produção atual da música e o seu “futuro”.

No documentário, os artistas que participaram no projeto falam de como a internet e o computador mudaram a produção musical em seus mais diversos aspectos: a composição, o conhecer pessoas para tramparem com você, a construção da música a partir da gravação, a distribuição, o consumo, o design. Enfim, toda a discussão é muito rica e eu estou aqui, completamente encantada pelo que acabei de ver:

No site, as parcerias já estão disponíveis para serem ouvidas e, devo dizer, são um prato cheio para quem curte música eletrônica para além daquela coisa chata e maçante da reprodução que acaba sendo tão comum nesse tipo de música.

Ótima descoberta de fim de dia. 🙂

Explosions in the sky.

Eu nunca fui de ouvir música instrumental: Apaixonada por poesia desde muito cedo, me prendia às letras das músicas. Cantante de vidros de desodorante, me prendia às linhas vocais.

Aí, um dia, meu namorado baixa uma banda x, que a gente decidiu parar para ouvir: era o Explosions in the sky.

Eu nunca tinha ouvido uma coisa daquelas: eles tinham uma coisa que lembrava muito algumas bandas que eu ouvia, como o The Juliana Theory, mas eles não tinham o vocal e, obviamente, não tinham as letras: o elemento que mais me puxava para ouvir esse estilo de música. Eles não tinham isso: mas me tocavam como se tivessem.

As guitarras dessa banda são encantadoras: conseguem contar um enredo, uma história e promover uma certa catarse em nós quando ouvimos. São fortes e desconsertantes. E um ponto muito importante para mim: Sem firulas.

Eu adoro a maneira como a música deles é extremamente envolvente, ao ponto de não se conseguir ficar inerte: ouvir um disco dos caras é entristecer, ficar feliz, dançar, sentir. Mas tudo isso de um tanto que, para escrever, coloquei a banda aqui e, de repente, estava toda envolvida na música de olhos fechados, só sentindo ela entrar em mim.

E foi assim que eu, que nunca pensei que fosse gostar de música instrumental, me apaixonei por uma banda que consegue falar da vida, sem usar uma palavra sequer.

 

 

Música como trilha sonora ou música como alimento?

Fiquei me esforçando para lembrar de onde surgiu a inspiração desse post. A questão é que veio de uma frase dessa entrevista aqui com o Lucas, vocalista da Fresno:

Em alguma parte da entrevista, Lucas falando sobre vinis, diz que “as pessoas não ouvem mais música, tu ouve para dormir, tu ouve para acordar… não é uma coisa para ser trilha sonora, é uma coisa para ouvir e consumir a música”.

De alguma forma, isso fez todo um sentido de reflexão em relação ao mundo e à minha vida, até porque, eu gosto muito de parar e pensar sobre as coisas. E como eu amo tanto música, fazia sentido pensar sobre isso.

Não é de hoje que música se tornou algo para embalar a sua vida. Você ouve para acordar, para costurar, para dormir, para estudar, para trepar, enfim: ouve para viver e, por isso, acaba não vivendo a música. Isso acabou acontecendo, é claro, com a “imagetização” da música, a partir dos videoclipes, e mais tarde (e mais gritantemente) com o livre acesso à música a partir dos mp3: em um mundo onde ter aquela discografia é mais importante do que ouvi-la e gostar realmente dela.

Degustar música não é fácil e para quem está acostumado a viver nesse mundo de tanta hiperatividade é mais fácil mesmo deixá-la de fundo, do que parar o corpo, acalmar, perceber coisas além da letra e do mais marcante.

Quando eu era mais nova, eu tinha muito o costume de parar tudo que fazia durante a tarde, por exemplo, e ficar só ouvindo a música, percebendo coisas dela. Acabei perdendo esse costume com o tempo, até que um dia, estava viajando, ouvindo música, quando comecei a reparar coisas que eu nunca tinha reparado em alguma canção do Móveis (Coloniais de Acaju). Depois desse dia, percebi que precisava fazer isso mais e mais vezes.

Estar preso no visual, já que vivemos num mundo bastante imagético, acaba atrapalhando muito a gente a ouvir música, paramos para prestar atenção em outras coisas e esquecemos que tem aquela música lá. Apagar a luz é bem legal nessas horas. Tudo parece saltar e ficar mais evidente.

Não digo que devemos parar de deixar a música como trilha sonora, porque ela é realmente um elemento ótimo na vida para se fazer isso, mas não acho que algo tão grandioso deva ficar só nesse patamar: ela deve ser degustada e aproveitada do jeito que merece.

(imagens: weheartit.com)

Agridoce.

Agridoce é um projeto paralelo, coisa não muito comum entre artistas brasileiros. Acontece que Pitty (já falei dela aqui) e Martin se juntaram para fazer alguma coisa diferente daquilo que acontece na outra banda deles. E é disso que vou falar hoje.

Lembro de alguma coisa ter me levado a algumas poucas músicas gravadas por pelos dois, alguma coisa no My Space. Nascia alguma coisa diferente, bem do jeito que nasce uma nova banda: Pela vontade de fazer algo diferente, de dar espaço para aquilo que precisa ser colocado para fora.

Entre essas primeiras músicas, já estava “Dançando”, aquela que acabou ficando mais famosa. Li em algum lugar a Pitty dizendo que começou a escrever a letra dessa música após um encontro com amigos e que ela fala daqueles momentos em que a gente se sente bem por gestos simples que são belos.

Se paro para pensar no que a Pitty disse dessa música, da beleza na simplicidade, começo a perceber que o lance do Agridoce, para mim, é bem isso mesmo: o simples que é belo, que é singelo, que pode, sim, ser dor e que traz o belo da dor conjuntamente.

Gosto muito dos elementos musicais que existem nas músicas desse projeto: as percussões, o piano, os violões, as duas vozes, a escaleta , enfim: Gosto de se trazer mais elementos para a música. Ainda mais elementos mais orgânicos num tempo de tanta coisa eletrônica sem freio.

Acho que as letras do Agridoce são mais falando de si. Da dor da existência, da dor do amor. Não só da dor, mas das alegrias. Acho que são letras que falam do peso da existência: um peso que dói e que é prazer.

Agridoce é uma daquelas coisas que vale a pena ouvir. Não há no Brasil nada que seja muito parecido: Existe coisas com influências notavelmente parecidas como a Tiê e o Thiago Pethit, mas mesmo que você não goste da banda que leva o nome da Pitty, acho que precisa ouvir, porque isso aqui é diferente: as letras são diferentes, os elementos são outros, a temática é outra, o clima é outro, a banda é outra. E tem até cover de Smiths, para gente se apaixonar ainda mais.